página dedicada a resgitrar as obras do autor
Rafael Azevedo estreou na literatura com dois romances caudalosos e líricos: Ecos no coração da terra (2021) e Lágrima sobre a Pastoral (2023), e agora apresenta esta pequena coletânea de textos curtos chamados por ele de “peças narrativas”. De fato, elas são de difícil classificação: algumas têm uma estrutura mais próxima da de um conto; outras, de meditações de fundo metafísico. Em algumas peças mais longas, como Carta, O violonista e Sem destino, o inusitado e o fantástico se misturam e nos levam a desfechos inesperados; outras nos oferecem uma visão filosófica e original da realidade; outras ainda poderiam ser classificadas com itens de um bestiário, como As inquietações de um peixe, Peça de pássaro, Inseto na xícara e Borboleta azul. Há ainda uma bela carta ficcional de Darcy Ribeiro à sua esposa Berta.
As imagens de Eadweard Muybridge, que ilustram a capa e algumas peças, são um contraponto interessante às criações de Rafael Azevedo. Muybridge criou as suas fotografias sequenciais como um estudo do movimento dos seres humanos e dos animais, para definir como membros e músculos se comportam ao correr, andar, saltar etc – e acabou nos legando imagens que extrapolam o mero estudo anatômico e dinâmico e revelam facetas mais profundas da existência. O mesmo logra o autor, nesses pequenos estudos metafísicos, cujo objetivo declarado é nos dar “esporádicas alegrias de espírito”.
Por Marcelo Nunes, artísta plástico, tradutor, editor da Nauta e escritor.
Lágrima sobre a Pastoral, assim, é um romance do limiar que vem a partir de uma insônia que provoca a sobreposição de camadas de linguagem e discursos que distorcem a narrativa. É preciso escavá-la, independentemente da profundidade que tenha. Uma narrativa-poço, abismal tenebroso e fascinante, do qual pode tanto jorrar o doce da água boa do conhecimento, quanto o amargo do escuro que está dentro do ser. O poço é o espelho escuro, o círculo estreito, a prova do neófito, a espiral iniciática que nos prepara para a passagem. Passagem que todos temos de enfrentar um dia.
Por Sheila Maués Autiello (Professora de literatura e pesquisadora na Università degli Studi di Milano - Itália)
Sobre a obra:
Terra, família e gerações de vencidos compõem Ecos no coração da terra. Através de suas vozes-fragmento, um tempo de memória vazada parece impor um silêncio. Um silêncio de ausência e de uma espécie de falha feita de vidas interrompidas, senão mesmo interditadas pelo destino violento dos que buscaram assentar-se em terras de uma região como a Amazônia. É assim que as camadas de tempo vão aos poucos se descortinando, em seu silêncio, no coração da terra, até o limite da mais aguda fantasmagoria, como nesse “eco” de Benjamin: “Nestas terras reina uma lei absoluta. E nestas leis somos obrigados a aceitar todas as ordens, todas as decisões, até nosso próprio desterro. Somos uma família, uma família deste país que parece estar sempre no passado, e com nossas sombras fantasmagóricas, nossos rostos cadavéricos assombramos o futuro.
Por Luís Heleno Montoril del Castilo (Porfessor, pesquisador e ensaísta na Universidade Federal do Pará - Brasil)